Quem és tu, Egipto?

As pirâmides, o deserto e o Nilo: três imagens que automaticamente nos vêm à cabeça quando pensamos na terra dos Faraós, ao mesmo tempo que vemos a larga franja de terras ao longo do rio, que se abre de Assuão até ao delta, em pleno Mediterrâneo.

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The Light of the Rising Sun Upon the Pyramids of Gizeh, Frederick Goodall (1897)
As pirâmides, o deserto e o Nilo: três imagens que automaticamente nos vêm à cabeça quando pensamos na terra dos Faraós, ao mesmo tempo que vemos a larga franja de terras ao longo do rio, que se abre de Assuão até ao delta, em pleno Mediterrâneo.
 
Não é difícil ficar encantado com todo o ambiente egípcio, especialmente quando o concebemos como um lugar à parte no Mundo, longe de nós, bem às portas dos mundos místicos árabes. As majestosas pirâmides que dominam o planalto Gizé, a Esfinge que todos os dias observa o horizonte, as maldições que eternizaram jovens faraós nos anais da História, e o deserto do Sahara que guarda nas suas areias as memórias mais longínquas, de um tempo em que deuses e reis eram venerados e amados.
 
De um arqueólogo aficionado, a um egiptólogo apaixonado, ou a um mero turista, o Antigo Egipto maravilha qualquer um, trazendo sempre com ele as mais arrebatadoras paixões.
Busto de Heródoto | Metropolitan Museum of Art
Não podemos deixar de dar razão a Heródoto, quando este afirmou que o Egipto foi um autêntico presente do Nilo. O caudaloso rio tornara-se na chave para o êxito da civilização egípcia, oferecendo-lhe fartos recursos, graças aos nutrientes que, durante a estação da inundação, depositava nas suas terras, proporcionando o limo suficiente para fazer florescer as plantações.
 
Rio Nilo | KimKim
Contudo, o ambiente nem sempre fora assim tão idílico. Os seus primeiros habitantes começaram por viver num ambiente um pouco diferente. O deserto do Sahara, como o concebemos hoje, não seria um sítio lá muito convidativo para se viver. No entanto, há milhares de anos uma mudança climática, trouxe abundantes chuvas ao coração de África, e, pouco a pouco, um largo caudal de água começou a crescer, o Nilo.
 
Surgem inúmeros lagos e os rios transbordam. É a época do “Nilo Selvagem”, que leva consigo os vestígios de ocupação que possam ter ocorrido no Vale do Nilo egípcio, entre os 11.000 a.C e os 8.000 a.C. (Braga, 2006)
 
Durante a passagem para o Holoceno, por volta de 10.000 a.C., começa a desenvolver-se no Sahara um clima designado pelos geólogos, como o “Grande Húmido Holocénico”. Durante este período, o atual Sahara e a Líbia enchem-se de vida, com lagos permanentes, chegando até a ter praias sazonais, alimentadas por fartas chuvas.
 
Neste ambiente surge uma fauna e flora abundantes, que aos poucos vão atraindo os primeiros grupos de caçadores recolectores. Podemos comparar o Sahara quase que a um Éden, no qual vários grupos nómadas, paulatinamente, se vão estabelecendo para caçar animais e colher cereais. Assiste-se a comportamentos de nomadismo, cada vez mais reduzidos, ao passo que vai surgindo uma intensiva exploração de recursos paisagísticos e aquáticos, em grande escala.
 
Porém, em meados de 6000 a.C., as coisas começam a mudar, fruto de um lento processo fortemente associado aos períodos glaciares e interglaciares. Pontualmente, as temperaturas vão aumentando e a precipitação começa a reduzir, e com elas chega inevitavelmente o deserto. Com o aumento da aridez, inicia-se um processo de desertificação, que tornará o Sahara no maior deserto quente do mundo, o Grande Mar de Areia. O deserto apropria-se da paisagem, os recursos começam a escassear e as comunidades são obrigadas a procurar “abrigo” num local mais acolhedor, o vale do Nilo.
 
É desta forma que o Nilo entra, verdadeiramente, na história egípcia: proporcionando subsistência às populações que se fixavam nas suas margens. Num ambiente tão árido e hostil, o rio surge como uma fonte inesgotável de recursos, que fornece a água e os alimentos necessários à sobrevivência humana.
 
É por volta de 5500 a.C. que se manifesta o Neolítico “puro” no vale do Nilo, com o aparecimento da técnica do polimento das pedras, da tecelagem, da cerâmica abundante, de uma agricultura considerável e da domesticação dos animais (Lévêque, 2014). Este período é marcado por uma maior humidade do clima, sucedendo à aridez do Mesolítico – o que justificaria o desenvolvimento da agricultura.
 
Fruto desta mudança, começam a surgir assentamentos dispersos por aquele, que em breve, viria a ser o território do Antigo Egipto. No Norte, há indícios de povoados na região do Delta (Merimde) e no oásis de Faium. No Sul, os dados apontam para a zona entre o Médio Egipto e Hieracompolis. No entanto, convém sublinhar que estas primeiras comunidades não eram contemporâneas umas das outras.
 
Começam-se a registar ocupações em Nabta Playa, a primeira aldeia neolítica egípcia. Posteriormente, virão a aparecer as culturas de El-Omari e Maadi, no Baixo Egipto (Norte), e as de Badari e Nagada, no Alto Egipto (Sul).
 
Porém, os primórdios da civilização egípcia são, ainda, de um dos períodos mais obscuros da sua história. De acordo com Pierre Lévêque (2014: 80): “As informações extraídas de fontes documentais e arqueológicas, dão-nos apenas as grandes linhas dos acontecimentos.”
A dispersão no espaço dos centros culturais conhecidos, assim como o seu escalonamento no tempo, apenas permitem um estudo esquemático da evolução do Egipto neolítico
(Lévêque, 2014: 83)
Contudo, hoje em dia, a investigação avança a olhos vistos. Temos extraordinários e notáveis investigadores a debruçarem-se sobre estas cronologias e as suas gentes, dando-nos certezas e ainda mais provas que há muitas histórias e vivências enterradas no Sahara.
 
Talvez estejamos bem perto de saber, um pouco mais sobre aqueles que viram nascer esta civilização e que lhe deram alicerces suficientemente fortes, para crescer e vigorar por séculos e milénios, até aos dias de hoje.
 
 
 
Mas afinal, quem és tu Egipto?
 
No próximo post iremos desenterrar estas “culturas-mãe”, que deram as bases à edificação de um Estado próspero, no meio de um deserto árido e de um caudaloso rio.
 

Bibliografia

Braga, S. (2006). Arqueologia no Saara: uma aproximação ao deserto. Conimbriga(45), 359-375.
Lévêque, P. (Ed.). (2014). As Primeiras Civilizações: da Idade da Pedra aos Povos Semitas. Edições 70.

Cláudia Barros é licenciada em Arqueologia pela Universidade do Minho (2018). Em 2022 concluiu o Mestrado, na mesma área e instituição, com a dissertação “O Olhar de Gomes Eanes de Zurara sobre o Norte de Marrocos: estudo da paisagem de Alcácer Ceguer (Ksar Sghir)”.

Atualmente é colaboradora das revistas Egiptología 2.0 (Barcelona) e El Aldabón – Gaceta Interna del Museo Nacional de las Culturas del Mundo (México), e tradutora da Ancient History Encyclopedia, especialmente no âmbito da Assirologia e Egiptologia, a sua área de estudo e eleição.

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