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Paleta de Narmer: documento fundacional da identidade egípcia

A Paleta de Narmer trata-se de uma paleta ritual que comemora os feitos do faraó Narmer. Descoberta por J. E. Quibell e F. Green, em Hieracompolis, é um dos «Documentos da Unificação» que nos permite compreender o que se passara nos primórdios da civilização egípcia.

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Descoberta em 1897/98 por James E. Quibell e Frederik Green (1), em Hieracompolis, trata-se de uma paleta ritual (2) de xisto, com 64 cm de altura, esculpida em ambas as faces, que apresenta uma série de episódios que comemoram as façanhas do reinado do faraó Narmer (3).
 
 

Representação do rei Narmer | Wikipedia

 
Acima de tudo, a paleta reflete a importância que a unificação do Alto e Baixo Egipto teve na construção da identidade egípcia. O episódio que narra acabará por ser uma alegoria que se repetirá ao longo de toda a História do Egipto: a expulsão de povos estrangeiros que se tentam apoderar do território e as constantes tentativas de reunificação do território.

Decifrando os pormenores…

 
No topo da paleta, entre as duas cabeças da deusa Bat, encontram-se um par de hieróglifos inseridos dentro de um serekh (5): um peixe-gato (nar) e um cinzel (mer). Estes sinais desvendaram a identidade do personagem central da narrativa: Narmer.
 
B
 
A
 
Ambas as faces da paleta apresentam-se profusamente decoradas em baixo-relevo — um cânone que regerá maior parte da produção artística daqui para a frente. Na face (A) podemos ver Narmer, sob o olhar atento de duas vacas, a envergar uma coroa cilíndrica de remate arredondado — hedjet, a coroa branca do Alto Egipto.
 
Na parte central, o monarca ergue no ar uma maça de maneira a atingir um inimigo prostrado a seus pés, agarrado pelos cabelos com a mão contrária. Aos pés do rei-guerreiro surgem retratados os seus inimigos abatidos.
Detalhe da face A
 
Os momentos em que o monarca aparece são de um simbolismo enorme, uma vez que pretendem passar a ideia de que o rei conseguia subjugar todos os que lhe fizessem frente. Narmer é idealizado como aquele que consegue espezinhar o inimigo, exercendo o seu domínio num horizonte livre de adversários.
 
Desta forma, a paleta reflete a mensagem óbvia que pretendia passar: o rei era a força motriz do combate e da liderança, era ele quem assegurava a paz e bania todos os que lhe faziam frente.
O cativo agarrado por Narmer aparece representado com as caraterísticas típicas dos líbios — barba e cabelos encaracolados. Contudo, este poderia também pertencer a qualquer outra tribo que habitasse na zona norte do território egípcio.
 
Ainda na mesma cena, e em frente ao faraó, podemos observar o deus Hórus sob a forma de um falcão representando o lado divino do rei. A ave pousa graciosamente uma das patas em cima de um conjunto de papiros que saem das costas de um inimigo. Recorrendo a um instrumento, Hórus submete o homem pelas narinas, aludindo à conquista do delta (Baixo Egipto).
 
Na face contrária (B), o rei fixa o olhar em direção a um conjunto de cadáveres empilhados, enquanto preside ao desfile triunfal após vencida a escaramuça. Desta vez, o soberano já porta outra coroa: a pshent (4), a coroa do Alto e Baixo Egipto.
 
Detalhe da face B
 
No centro da paleta surgem dois quadrúpedes, frente a frente, com gigantes pescoços entrelaçados. Duas figuras humanas curvadas fazem força enquanto puxam, para si, as cabeças dos animais com uma corda. Estes animais são símbolo da contenção da desordem: os esforços de Narmer transformam o caos em ordem após a unificação do país.
 
Detalhe da face B
 
Na base, o poder do faraó aparece simbolizado pela figura de um touro possante que investe toda a sua força contra uma cidade inimiga, destruindo os alicerces do opositor. Debaixo da cabeça do animal jaz o corpo de um homem pisado pelo touro enfurecido.
 
Detalhe da face B
 
Fotografia integral da Paleta de Narmer | Wikipedia
A importância da Paleta de Narmer vai mais além do personagem: a sua iconografia ficará fixada para o resto da história egípcia e todos os reis quererão ser representados como soberanos justos e poderosos que afastam os inimigos do Egipto. Na realidade, a representação do faraó golpeando com uma maça os seus inimigos é uma constante nos monumentos régios: Tutmés III ou Ramsés II, que reinaram mais de quinze séculos depois, fizeram-se representar na mesma pose nos muros dos seus templos.

Bibliografia

Extras 

 

Notas

(1) James E. Quibell e Frederik Green foram dois arqueólogos britânicos que levaram a cabo escavações em Hieracompolis. Durante as suas intervenções em 1897/98, no meio de vários artefactos, acabaram por encontrar aquela que conhecemos hoje como a Paleta de Narmer.
(2) Reproduz a forma das paletas empregadas pelos antigos egípcios para misturar os pigmentos e maquilhar-se, mas maior e com elementos comemorativos.
(3) Rei da Dinastia 0. Citado na Lista Real de Abidos como Meni, e na obra de Maneton como Menés.
(4) Esta “nova” coroa passaria a ser o testemunho da unificação do território.
(5) Os investigadores acreditam tratar-se de uma das mais antigas representações da deusa Hathor, a regente do céu.
 

Cláudia Barros é licenciada em Arqueologia pela Universidade do Minho (2018). Em 2022 concluiu o Mestrado, na mesma área e instituição, com a dissertação “O Olhar de Gomes Eanes de Zurara sobre o Norte de Marrocos: estudo da paisagem de Alcácer Ceguer (Ksar Sghir)”.

Atualmente é colaboradora das revistas Egiptología 2.0 (Barcelona) e El Aldabón – Gaceta Interna del Museo Nacional de las Culturas del Mundo (México), e tradutora da Ancient History Encyclopedia, especialmente no âmbito da Assirologia e Egiptologia, a sua área de estudo e eleição.

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