A «Instrução Lealista» trata-se de um composição literária do Império Médio, escrita em egípcio médio, que tem como tema central a importância da lealdade ao faraó. Desconhece-se a sua autoria, contudo os investigadores apontam Mentuhotep – alto-funcionário de Sehetepibré (XII Dinastia) – como o autor.
Todas as cópias que sobreviveram são datadas do Império Novo; contudo, podemos também encontrar seis das primeiras estâncias numa estela de Abidos (Museu Egípcio, Cairo CG 20538) que pertenceu a Sehetepibra – o vice-tesoureiro de Amenemhat III, antepenúltimo rei da XII Dinastia.
De acordo com Telo Ferreira Canhão (2014: 829), as frases finais da estância nº 14 aparecem numa outra estela (Berlim 7311), encontrada também em Abidos, pertencente a Rehuankh – indivíduo que viveu durante os reinados de Neferhotep I e Sebekhotep IV, da XII Dinastia (II Período Intermédio).
Consideram-se as seguintes fontes para o estudo da Instrução Lealista, das quais nenhuma apresenta uma versão integral do texto:
- a Estela de Sehetepibré (Museu Egípcio, Cairo CG 20538) – reinado de Amenemhat III;
- a tabuinha de madeira Carnavon II (Cairo JE 43261D) – XVIII Dinastia;
- o Papiro Louvre E 4864 – XVIII Dinastia;
- os fragmentos de papiro conservados na J. Pierpont Morgan’s Library e os papiros Amherst XII e XIII – XVIII Dinastia;
- o Papiro UC 32781 (Petrie Museum) – XIX Dinastia;
- o ostrakon UC 39666 – Período Raméssida;
- os dois fragmentos de calcário 9 «OIOC» e 10 «OIOC» (Oriental Institue Chicago);
- 65 ostraka do Império Novo.
Instrução Lealista
«Princípio da instrução feita pelo membro da elite e governador, pai divino amado do deus, superior dos segredos da casa real, v.p.s., chefe do país inteiro, sacerdote sem, admnistrador do chendjit.
Ele (diz) como instrução dos seus filhos: «Eu vou-te dizer (uma coisa) importante e fazer com que vós (a) escuteis. Eu vou fazer sempre com que vós saibais (ter) um (bom) comportamento para sempre, um método de vida com sucesso (para) passar a existência em paz.
Adorai o rei Nimaatré, que ele viva eternamente no interior do vosso corpo. Confraternizai com sua majestade no vosso coração. Propagai o seu terror diariamente! Suscitai para ele louvores em relação a cada momento!
É Sia que está nos corações os seus olhos exploram cada ser! É Ré, vivemos sob a sua governação: aquele que está sob a sua sombra está destinado a grandes posses. É Ré, vemos pelos seus raios: ele ilumina as Duas Terras mais do que o disco solar! O seu ardor queima mais do que a chama do fogo. No seu momento ele é mais ardente do que o (próprio) fogo. Ele faz florescer mais do que o grande Nilo. Ele encheu as Duas Terras de força e de vida. Os narizes gelam quando ele cai em cólera (mas) quando ele está calmo até se respira o ar.
Ele dá alimentos a quem o segue e assegura uma renda ao que adere ao seu caminho. Aqueles que ele favorece estão destinados a serem senhores de provisões, aqueles que forem seus inimigos não terão (nada). O ….. do rei está destinado a ser venerado, …….. os seus inimigos. É o seu poder que combate por ele. O (seu) terror… faz com que… respeito por ele. Olhar por cima … encontra-se acima do amanhecer da sua perfeição.
Ele revela a forma… seu coração. É a vida para quem lhe presta adoração. Os seus inimigos são submetidos… Os cadáveres ….
O rei é um ka, a sua palavra é o alimento. Aquele que ele cria existirá. Ele é o herdeiro de cada deus, o proetor da sua criação. Eles reprimem os seus inimigos por ele. Agora, sua majestade, vida prosperidade saúde, está no seu palácio, vida prosperidade saúde. Ele é Atum porque une pescoços: a sua proteção está por detrás daquele que permite o seu poder. Ele é Khnum para todos os corpos, o criador que faz vir à existência a humanidade. Ele é Bastet que protege as Duas Terras: aquele que o adorar terá a proteção do seu braço. É sekhmet contra quem transgride as suas ordens: aquele a quem ele tiver aversão está destinado à miséria.
Combatei em seu nome. Mostrai respeito pela sua vida. Evitai (qualquer) momento dee maldade: um partidário do rei terá estatuto venerável. (Mas) não haverá um túmulo para quem se revoltar contra sua majestade: o seu cadáver será lançado à água. Não vos oponhais às recompensas que ele der. Aclamai a deusa do Baixo Egipto e adorai a sua coroa branca. Prestai homenagem àquele que usa a coroa dupla. Se fizerdes isto será salutar para os vossos corpos. Vós encontrareis isto na eternidade: aquele que está na terra sem ter problemas com ela, atravessa a existência em paz! Entrai na terra que o rei dá! Repousai num lugar de eternidade. Uni-vos à caverna daquele que está aí eternamente, (com) a casa dos vossos filhos cheia de amor por vós e os vossos herdeiros estarão nos vossos lugares.
Imitai o meu exemplo! Não negligencieis as minhas palavras! Executai com eficiência as instruções que eu fiz. Então, podereis dizê-(las) aos vossos filhos. A palavra ensina desde o tempo do deus. Eu sou um dignitário para ser ouvido, dos conhecimentos do qual o seu senhor se inteirou. Não ultrapassem os limites do meu exemplo! Não façam distinção dos meus méritos! Enviem os fragmentos de inércia. Um filho que escuta não terá (qualquer) maldade. Não terão todos os nossos planos sucesso com ele? Vós ireis elogiá-las [às instruções] daqui a uns anos, (pois) a sua solidez permitirá alcançar terra.
Outra forma de desenvolver os vossos corações, – de facto com benefício para os vossos servidores – é ocuparem-se dos homens, reunir os vossos dependentes e (assim) manterem os servidores (prontos) para atuarem. São os homens que produzem o que existe! Viva-se do que está nos seus braços! De facto, se faltar isso a pobreza prevalecerá! São as profissões que produzem os alimentos. Aquele que tem a sua casa vazia com as suas fundações em risco, o ruído delas restabelece as paredes? É senhor de muita gente, aquele que dorme até clarear, (mas) não há sono para o homem solitário. Não se pode mandar um leão em missão! Nenhuma manada é aprisionada por um muro! O seu grito é como o de quem tem sede à volta de um poço! … como os pássaros raimiu.
(As pessoas) desejam a inundação e elas encontram-na, nenhum campo cultivado existe por si mesmo! Os touros que são do boieiro (?) são grandes: é aquele que os encerra que conduz os touros. É … que faz acostar … gado miúdo em tão grande quantidade que não tem fim. As profissões …. …. …. do deus.
Quanto àquele que está abastecido em relação a isso, está vigilante! Não oprimas com impostos o lavrador: (mostra) afeto por ele e tu encontrá-lo-ás no ano seguinte. Se ele está vivo tens os seu braços, se tu o destruíres então ele pensará ser vagabundo. Fixa os impostos de acordo com a cevada do Alto Egipto, … … … … no coração do deus!
As riquezas daquele que pratica o mal não se conservam; os seus filhos não encontrarão a sua prosperidade. Aquele que causa aflição provoca o fim da sua (própria) vida; ele não terá filhos que estejam perto do (seu) coração. Os dependentes vão passar por cima dele; não haverá herdeiros para aquele que escapa ddo coração. O respeito é grande por aquele que é senhor daquilo que é seu; a voz abundante é um mal do coração. O malvado destrói o seu pequeno outeiro; uma cidade é fundada pelo homem que é amado.
A paciência é o monumento de um homem; o silência é eficaz para … … … … … … … … que prevê contrariedades; aquele que tem uma autoridade poderosa regressa. Ao misericordioso a vaca produz para ele; o mau pastor tem o seu rebanho reduzido. Combatei pelos homem de todas as maneiras. Ele são um rebanho útil ao senhor. São eles que encontram como vivermos graças a eles; eles (também) são bastante úteis para a união à terra. Vejam … … … … … .
Vigiai os vossos servidores do ka. Se o filho for negligente a estabilidade pertence ao sacerdote puro! É agradável aquele que dizemos herdeiro. Instala o dignatário defunto e invoca o seu nome. … … … glorificado e traz as oferendas de alimentos, porque é (mais) útil para quem faz do que para aquele para quem é feito: é o defunto que protege aquele que fica sobre a terra. … … em paz, pelo escriba do serviço sacerdotal da casa de Amon …
Hori, escriba filho daquele que pratica uma ação, escriba do … . ».

Bibliografia
Canhão, T. F. (2014). Textos da Literatura Egípcia do Império Médio. Textos hieroglíficos, transliterações e traduções comentadas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
López-López, R. (2022). Sabiduría del Antiguo Egipto. Antología del Pensamiento Egipcio. Córdoba: Editorial Almuzara.
Nota: Com base na transcrição feita por Telo F. Canhão na obra «Textos da Literatura Egípcia do Império Médio. Textos hieroglíficos» (2014).
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