Acabamos de chegar às portas de um episódio crucial na narrativa do povo do Nilo: o aparecimento de um “novo” Egipto.
Desde os primórdios da História egípcia que o país sofreu mudanças territoriais e políticas em prol dos primeiros reinos que nele se foram estabelecendo – Nagada, Abidos e Hieracompolis. Contudo, com a unificação, estas incipientes comunidades dão lugar a um espaço único sob a forma de um país unificado, onde um faraó governa sabiamente a totalidade do território.
Nesta altura floresce a burocracia; desenvolvem-se os sistemas de regadio a grande escala; aposta-se em projetos arquitetónicos nunca antes vistos; desenvolve-se um sistema económico e de cobrança de impostos ligado aos templos e ao monarca; complexificam-se as crenças religiosas; a realeza começa a dar importância às expedições comerciais e às missões de reconhecimento a terras estrangeiras (Ikram, 2021: 146).
Apesar da escassez de dados relativos ao período onde se enquadra a unificação do território egípcio, uma série de achados – “Documentos da unificação” – ajudaram a clarificar um pouco as ideias e teorias dos egiptólogos, no caso das transições dinásticas desta altura.
A descoberta de selos cilíndricos pertencentes a monarcas na necrópole de Abidos – um de Den e outro de Qa’a –, ajudaram a ter uma ideia do processo através do qual a História egípcia se despede da Dinastia 0 e dá início à I Dinastia. Tais artefactos acabaram com as especulações em relação ao número de monarcas e à ordem de sucessória dos primeiros faraós (2).

Mas, então, como é que se desenrolou a unificação do território egípcio?
O mais provável é que esta não se tenha dado através da força. As provas arqueológicas mostram que fora consequência de um processo paulatino que se foi registando ao longo de uma vasta diacronia, com uma clara influência cultural do Alto Egipto sobre o Baixo Egipto.
Kathryn Bard (2007: 98) coloca a hipótese de que a unificação se possa ter concretizado mediante uma ou várias conquistas militares do Norte. Inevitavelmente, de certeza que terá havido um conflito ou outro, mas nada comparável, por exemplo, a uma guerra civil. Nesta altura, mesmo a deslocação das populações não fora repentina, concretizando-se como processo gradual e demorado, que levou o seu tempo.
A unificação política (3) dá-se em finais de Nagada III, sob a égide do faraó Narmer (4) (Dinastia 0/I). O monarca organiza todo o território desde a ilha de Elefantina à costa mediterrânica, unindo o país numa distância que compreendia mais de mil quilómetros – o Alto e o Baixo Egipto deixam de ser entidades separadas e tornam-se num só (5).
Com a “união” das Duas Terras, todos os reis egípcios começam a portar o título de “Rei do Alto e Baixo Egipto” – duas divisões arquetípicas entre o vale e o delta. Desta forma, “expressava-se fortemente o conceito de unidade” (Kemp, 1992: 37), e de dualidade, tão presente na história desta civilização.
Esta divisão expressava-se na utilização de duas diferentes coroas, consoante a região: o Alto Egipto era representado pela coroa Hedjet e o Baixo Egipto pela Deshret. Aquando da união das “duas terras”, ambas as coroas se juntam uma à outra, originando a coroa Pshent.
Epítetos e títulos, como ‘Senhor das Duas Terras’ (nb-t3wy) ou ‘Rei do Alto e Baixo Egipto’ (nswt-bἰty), demonstram o marcado contraste que se começa a desenvolver entre o norte e o sul, apesar de agora a titulatura régia reportar a um espaço único.

Título de ‘Rei do Alto e Baixo Egipto’, «nswt-bity»

Variante do título de ‘Rei do Alto e Baixo Egipto’, «nswt-bity»

Título de ‘Rei do Alto e Baixo Egipto, Senhor das Duas Terras’, «nswt-bity nb t3wy».
De acordo com Irene Sagalés (2018: 22):
Narmer (…), é o primeiro monarca do qual se sabe com certeza que governou sobre a totalidade do Egito (…). Oriundo da cidade de Tinis, foi reconhecido pelos seus contemporâneos como o unificador de todo o território egípcio e considerado por isso o primeiro faraó da dinastia I.
Os triunfos do rei – e de outros personagens da I Dinastia – estão presentes em alguns dos “Documentos da unificação”, dos quais a Paleta de Narmer é um dos mais conhecidos.
Os monarcas deste período tiveram que estabelecer um sistema governamental complexo, assente numa burocracia leal ao rei, que atuasse por todo o território; estabelecer fronteiras que fossem o reflexo da nova ordem política, e ao mesmo tempo, combinar tradições sociais e religiosas para dar coesão ao novo país (Ikram, 2021: 146).
Mênfis e Abidos
A primeira coisa que o monarca faz é transferir a capital do sul para o norte – situada agora em Mênfis (Mn nfr). Provavelmente, tal ato não fora inocente, já que a sua localização facilitaria bastante a tarefa de governar todo o país a partir do topo. Não obstante, esta ação “acabou por romper os laços de parentesco do monarca com a elite [de Abidos], consolidando ainda mais o seu poder” (Martínez, 2017: 10).

As cidades de Abidos e Mênfis em hieróglifos | JSesh
Mênfis torna-se ainda num importante centro religioso, trazendo consigo a inauguração das necrópoles mais próximas a esta – Saqqara (Martínez, 2017: 14) e Helwan – que, na II Dinastia, se tornarão no local de enterramento de monarcas e membros da elite. Independentemente desta movimentação de centros religiosos, Abidos mantém-se também como necrópole real. (6) O Egipto conta agora com dois importantes centros: Abidos e Mênfis.
Os soberanos da I Dinastia escolheram uma zona não utilizada de Abidos para se sepultarem. As inumações eram feitas em túmulos cobertos por uma colina ao nível do solo que não apresentavam quaisquer estruturas visíveis. Aqui uma estrutura retangular de tijolo e de dimensões consideráveis delimitava um espaço cerimonial – “palácio funerário” –, que acompanhava o túmulo apesar de estar separado deste por um 1,5km de distância. Em Sakara começam a levantar-se grandes mastabas de base retangular destinadas aos membros da elite.

Cidades
Por todo o Egipto vão-se estabelecendo e formando cidades que funcionavam como centros administrativos do Estado. As cidades egípcias assinalam uma mudança fundamental no caráter do povoamento que se vai estabelecendo na égide da urbanização: aparecem cidades maiores, com uma ocupação dispersa, rodeadas por muralhas e com uma densidade populacional bastante elevada.

O território egípcio propiciou o estabelecimento disperso das populações, e o aparecimento de cidades em zonas distantes umas das outras. A sua localização era decidida consoante questões religiosas, o acesso a recursos hídricos e aos melhores terrenos, as rotas de comércio e a facilidade defensiva (Ikram, 2021: 292).
Bard (2007: 103) ressalva que:
(…) a organização espacial das comunidades não era como a da coetânea Mesopotâmia meridional, onde imensas cidades se organizavam em torno de grandes centros de culto. (…) As cidades e povoados egípcios podem ter estado organizados espacialmente de forma menos rígida que os mesopotâmicos (…).
As escavações levadas a cabo em Mênfis apenas conseguiram recuperar vestígios de estruturas de palácios e de edifícios residenciais, não revelando muito do seu urbanismo e da evolução da cidade, já que parte dos seus elementos foram reutilizados na época medieval e moderna para erguer a cidade do Cairo (Ikram, 2021: 293).
Conservaram-se algumas provas arqueológicas destas primeiras cidades. Em Hieracompolis, uma fachada de ladrilho decorada profusamente com nichos e situada dentro da cidade (Kom el Ahmar) foi interpretada como a entrada de um «palácio», quiçá um centro administrativo (…). Em Buto, no delta, é possível que um edifício retangular de ladrilho fechado de começos da I Dinastia, construído sobre níveis anteriores datados de Nagada II, Nagada III e Dinastia 0, sejam os restos de um templo no interior da cidade.
(Bard, 2007: 103)
Expansão territorial e contactos externos
As fronteiras são ultrapassadas e os egípcios aventuram-se pelos corredores da Península do Sinai e erguem fortificações ao sul da Palestina. A Núbia vive um período em que a influência faraónica se torna bastante intensa, ao ponto dos habitantes locais sentirem a necessidade de se deslocarem para o sul do país.

Uma etapa crucial deste processo de extensão territorial pode ter sido o casamento de Narmer com uma mulher poderosa chamada Neithotep, a primeira rainha do Egito, natural da região de Nagada, um dos centros mais importantes do Alto Egipto. Esta aliança constituiu a base de edificação de um consenso político mais amplo.
(Sagalés, 2018: 22)
Bibliografia
Bard, K. A. (2007). La Aparición del Estado Egipcio.En I. Shaw, Historia del Antiguo Egipto (J. M. Ortiz, Trad., págs. 90-125). La esfera de los libros.
Campagno, M. (2002). Los “proto-estados” del Alto Egipto y la unificación del valle del Nilo.Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, 123-141.
Fuente, M. (2005). Las culturas préhistóricas en Egipto. Madrid: Ediciones Liceus.
Ikram, S. (2021). Ancient Egypt. An Introduction. (I. A. Blanco, Trad.) Córdoba: Almuzara.
Kemp, B. J. (1992). Anatomía de una civilización.(M. Tusell, Trad.) Barcelona: Editorial Crítica.
Parra, J., Castellano, N., Almazán, M., & Ibáñez, M. (2021). Os Primeiros Faraós. A Fundação do Egipto. Edição Especial História, National Geographic. (R. Tavares, Trad.)
Sagalés, I. C. (2018). O Antigo Egipto e a Mesopotâmia. Os primeiros impérios da história. (I. Mafra, Trad.) Rio de Mouro: Printer Portuguesa | Indústria Gráfica SA.
Vercoutter, J. (1983). Que savons-nous de la ville égyptienne?Actes du colloque de Cartigny 1979, La ville dans le Proche-Orient ancien. Les cahiers du CEPOA 1, (págs. 133-163).
Notas
(1) Depois de unificado, o território egípcio irá sofrer, nomeadamente, nos Períodos Intermediários uma “des-unificação”, devido aos momentos conturbados vividos nestas épocas. Os Períodos Intermediários foram fases um pouco caóticas, de desmembramento territorial, de descentralização do poder régio e de invasões de povos estrangeiros. Contudo, os monarcas egípcios acabaram por conseguir unificar novamente as Duas Terras e trazer, de novo, a glória ao país.
(2) O famoso faraó Menés não está presente nesta lista, sendo substituído por Narmer. Ordem de sucessão dos vários reis da I Dinastia: Narmer, Aha, Djer, Djet, a rainha Merneith, Den, Andjib, Semerkhet e Kaa.
(3) Ver Pedra de Palermo – lista real de finais da V Dinastia. Na parte superior da pedra, apesar de partida, consegue-se ver uma lista de nomes e imagens de reis. Isto “sugere que os egípcios acreditavam que existiram governantes que precederam os da I Dinastia”(Bard, 2007: 93).
(4) O início do seu governo, assim como a unificação, encontram-se num momento de transição da Dinastia 0 para a Dinastia I, tendo-se considerado Narmer como pertencente a ambas.
(5) As designações de “Alto” e “Baixo Egipto” continuarão a existir, somente por questões geográficas, de maneira a se dividir o país em dois, apesar de estar unificado sob um único rei.
(6) Abidos fora a necrópole, por excelência, dos monarcas da Dinastia 0, nomeadamente a necrópole U. Aqui chegaram-se a fazer enterrar onze reis da I e II Dinastia (Ikram, 2021: 146).
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