Amenemhat I Sehetepibre (c. 1949-1920 a.C.) foi o primeiro rei da XII Dinastia (1939-1760 a.C.). O seu reinado inaugura o Império Médio, depois de um período conturbado de grande instabilidade – I Período Intermédio -, trazendo consigo a estabilidade política e a reorganização estatal do Egipto.
Amenemhat foi vítima de uma conspiração que terminou no seu assassinato, enquanto que o filho Senuseret I combatia os líbios. Na obra Amenemhat transmite ao filho os seus mais preciosos conselhos para governar com sabedoria e inteligência, perante aqueles que procuram o caos e o derrube da monarquia reinante.
A obra segue um claro teor propagandístico e tem como objetivo justificar o nascimento desta nova dinastia. Não foi escrita pelo próprio faraó, mas sim pelo escriba Jety, o autor da famosa Sátira dos Ofícios.
Consideram-se as seguintes fontes para o estudo da obra:
- Papiro Millingen – XVIII Dinastia;
- Papiro Sallier I, British Museum 10185 – finais da XIX-XXI Dinastia;
- Papiro Sallier II, British Museum 10182 – finais da XIX Dinastia. Contém a totalidade da obra;
- Papiro Berlim 3019 – finais da XIX Dinastia;
- Papiro Berlim 23045 – XXX Dinastia;
- Papiro New York;
- as tábuas de madeira Brooklyn I e II – inícios da XVIII Dinastia;
- a tábua Carnarvon 5 – XVIII Dinastia;
- 82 ostraka (Deir el-Medina, Cairo, Amarna, Turim, Ashmolean Museum, Moscovo, Berlim, Karnak, Abidos, Malkata)- reinado de Hatshepsut e da XIX-XX Dinastia

Instrução de Amenemhat I ao seu filho Senuseret
«Princípio da instrução feita pela majestade do rei do Alto e do Baixo Egipto Seheteom o teu próprio coração a guardar-te, porque para um homem não há servidores no dia do seu infortúnio. Eu dei ao pobre e dei existência ao õrfão; eu fiz com que aquele que não tinha fim existisse. Aquele que comeu os meus alimentos fez uma acusação; aquele a quem eu estendi os meus braços criou medo relativamente a isso aqueles que em minha casa se vestiam com o meu linho fino olharam para mim como um vegetal, aqueles que se ungiam com a minha mirra derramaram água [no] meu celeiro.
Minhas imagens vivas, minhas partes entre os homens, façam-me um canto fúnebre como o que em nenhum lugar foi ouvido. A grandez do combate (ainda) não foi vista. Na verdade, quando alguém combate numa arena e esquece o ontem, a bondade não será vantajosa para aquele que ignora o que devia saber.
Depois do jantar, (já) a noite tinha chegado, eu tomei um momento de tranquilidade. Estendi-me na minha cama (porque) estava cansado e o meu coração seguiu o meu sono. Foi então que armas da minha proteção foram brandidas contra mim e eu fiz como a cobra do deserto. Eu despertei para o combate estando no meu corpo e encontrei um combate da guarnição. Se eu tivesse agarrado rapidamente nas armas que tinham na sua mão, eu teria feito recuar os cobardes em pânico. Mas ninguém é um homem forte durante a noite, ninguém pode lutar sozinho! Não existirá procedimento de sucesso sem um protetor.
Olha, a traição aconteceu quando eu estava sem ti. A corte não tinha ouvido que eu te fizera florescer, e eu não estava sentado junto de ti (para) então fazer planos por ti. Já que eu desconhecia isto, eu não levei a melhor sobre isto. O meu coração não eliminou a negligência dos servidores. Alguma vez as mulheres comandaram tropas? Alguma vez os desordeiros causaram tumultos no interior do palácio? Alguma vez os camponeses foram enganados relativamente às suas produções? Nenhum mal veio a mim desde o meu nascimento. Nunca tinha acontecido uma coisa semelhante numa ação de bravura.
Eu viajei até Elefantina e voltei para os pântanos do Delta. Eu detive-me nos confins do país e observei o seu interior. Eu alcancei os limites do poder através do meu poderoso braço e das minhas manifestações. Fui eu o criador dos cereais, o amado de Nepri(1). Hapi honra-me em cada entrada. Comigo ninguém teve fome nos meus anos, comigo ninguém teve sede. Puderam viver descansados com o que eu fiz e falar de mim. Tudo o que eu decretei estava no lugar relativamente a mim. Eu dominei leões e capturei crocodilos. Eu subjuguei os Uauaiu (2) e capturei os Medjaiu(3). Eu fiz os Asiáticos fazerem o andar dos cães. Eu fiz uma casa adornada a ouro, com os tectos de lápis-lazuli, as paredes de prata e o chão de sicómoro, as duas portas de cobre com ferrolhos de bronze, feita para sempre, preparada para a eternidade. Eu sei tudo isto como «senhor de tudo isso». Na verdade, numerosas calúnias estão nas ruas, o sábio diz «É assim!», o ignorante diz «Está bem!» porque ele não pode saber se está privado de ti.
Meu filho Senuseret, v. p. s.: as minhas pernas põem-me em marcha, (mas) o meu próprio coração está contigo e os meus olhos observam-te. Nascidos numa hora de coração feliz, ao lado do «Povo do Sol» eles prestam-te homenagem. Olha! Eu fiz o princípio e quero organizar o fim para ti. Fui eu que doei para ti o que estava no meu coração. Tu tens o encargo de conservar a coroa branca, a divina progenitura! O selo está no lugar, segundo o que comecei para ti. Há alegria na barca de Ré. Tu ascendes à realeza criada anteriormente por mim, (mas) não como eu me fiz alguém excelente. Edifica os teus monumentos! Assegura uma renda para o teu poço tumular! Luta para saberes de mim sabendo de mim! Porque não há ninguém que eu amasse tanto como tu junto à minha majestade, v.p.s. .
Isto é o seu fim, perfeito e em harmonia. Isto é para o ka dos favoritos, maravilhosamente bons, o escriba do tesouro Kagabuat e o escriba do tesouro Hori. Os escriba Ininana, ano 1, primeiro mês de Peret, dia 20.»

Bibliografia
Canhão, T. F. (2014). Textos da Literatura Egípcia do Império Médio. Textos hieroglíficos, transliterações e traduções comentadas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
López-López, R. (2022). Sabiduría del Antiguo Egipto. Antología del Pensamiento Egipcio. Córdova: Editorial Almuzara.
Notas:
Com base na transcrição feita por Telo F. Canhão em Textos da Literatura Egípcia do Império Médio. Textos hieroglíficos.
(1) Nepri, enquanto deus do grão, dos cereais, simbolizava a fertilidade das colheitas,o que o associava, a Hapi, considerado o «senhor de Nepri» por este estar dependente do aluvião trazido pela inundação do Nilo, e a Osíris pelo mito agrícola (Canhão, 2014: 815).
(2) Uauaiu são os habitantes de Uauat, a Baixa Núbia/Norte da Núbia, entre a primeira e a segunda catarata do Nilo.
(3) Medjaiu são os seus habitantessão os habitantes de Medja, uma região localizada no sudeste egípcio, a sul do Deserto Arábico fazendo já parte do Deserto Núbio, com o Nilo a oeste, o mar Vermelho a este, o uadi Hammamat a norte e o uadi el-Udi a sul (Canhão, 2014: 817).
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